chafurdar

escritos

O copo está sempre cheio ou vazio, depende de quem olha. Aquele que detém o olhar, detém o controle da situação. É a força por detrás dos olhos que define o tamanho da sua dor, da sua coragem, o ardor de fogo e brasa que lhe permite se levantar e encarar o mundo à sua volta. Você escolhe o que vê e, a partir da imagem que lhe aparece, você escolhe sua luta. Meus olhos verdes vieram do meu pai, o formato é como o da minha avó, mas a visão creio que tenha vindo da minha mãe. E não me refiro à minha miopia, piadas à parte, mas sim ao amor pela vida, pelo querer festejar. Ao negar o espaço vazio no copo, aceito as feridas como ensinamentos, e as cicatrizes são meras tatuagens: minha taça está sempre cheia, seja de água, seja de ar. Meus olhos escolheram acreditar que destinos prosaicos são muito tediosos, e que desafios inesperados tornam pessoas comuns em criaturas extraordinárias.

Tomo com gosto tudo que a vida me proporciona e aceito qualquer tombo como estímulo para continuar. 

nov/2018

Caminho

poesia

Preciso me afastar
para que possa a mim mesma alcançar.

Olhar pelos olhos de um outro alguém 
e aprender a ver com mais clareza.
Virar de costas ao espelho
(rejeita-lo!)
e ousar a insanidade de me amar
(aceitar-me!).
Desejo me afogar em delírios
para reaprender a respirar.
Essencial me desfazer das certezas,
é no silêncio em que a sabedoria está.

E só assim: livre, perdida e nua. 
Crua.
Poderei me encontrar.

out/2018

des mata

poesia

Certas feridas marcam a alma,
Afundam a carne,
Queimam o cerne.

A força da queda,
O impacto, o tombo.
Perde-se o ar.
A costela perfura o pulmão.
Flores e pétalas.
Os pés como raízes,
e não há para onde seguir.
Eternamente presa,
onde fui plantada.

Regada pelas lágrimas da chuva,
cercada por fantasmas,
novas sementes.

É uma mata fria e escura,
os galhos se entrelaçam
e sufocam.
O topo da árvore é alto demais,
longe demais.
Não há entrada para a luz.
Não há espaço entre as folhas.
Não há caminho para o sol.

O chão de terra puxa,
o machado cai,
a ferida abre,
o sangue sai.
O tronco já fraco,
não suporta tanto peso,
inclina, enverga e dobra.
Parte-se ao meio.
Rompe-se a alma.
Com um último suspiro, o baque surdo ecoa.
Apodrece.

out/2018