Aula de dança

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Quarta-feira tem dança. Às 8h da noite. Pego um ônibus perto de casa e desço, sempre no ponto final. Caminho duas quadras e entro no salão. Sempre chego cedo, fico sozinha por uns 10 minutos. Somente eu e a música, o espelho grande da sala como espectador solitário. À medida em que as pessoas vão entrando, cumprimento educadamente; não sou próxima de ninguém, nem quero ser. O professor chega, dá uma leve introdução sobre as atividades do dia, não presto atenção. Não estou ali para ser simpática ou fazer amigos, não me interesso pela socialização forçada e desnecessária daqueles à minha volta. Quero dançar. É por isso que estou ali. É por isso que mesmo cansada, mesmo tendo acordado às 7 horas da manhã e trabalhado o dia inteiro sob o sol ardente, ignoro firmemente as diversas bolhas nos pés e a coluna reclamando, coloco uma sapatilha, arrumo um coque nos cabelos rebeldes, que não lavo há 4 dias, e vou dançar. É isso que me motiva. É a paixão que desperta meu corpo. Quando a música começa, minha mente se desliga. Tudo que existe em mim some, me torno parte da música e ela guia meu corpo com excelência. São duas horas, duas horas completas de felicidade, onde me tranco em meu próprio mundo e nada pode me tocar. Sou poderosa, forte, única. Não há problemas fora daquela sala, tudo se torna perfeito no momento em que a primeira nota desliza pelos meus ouvidos. Não quero parar, nunca. Eu rodopio, rodopio e o mundo se desfaz ao meus pés; tudo posso enquanto danço. Enquanto olho meu corpo de desdobrar e flutuar frente ao espelho torno-me o centro do universo, e o mundo gira à minha volta. Sou tudo: ar, essência, alma e espírito. Pertenço à música, e ela é dona de mim. E quando a melodia acaba… sou humana de novo. Pequena, frágil e invisível. Saio da sala sem ninguém perceber, troco de roupa e respiro fundo. O mundo continua o mesmo de antes da música começar, frio e solitário. Na rua o vento arranha meus ouvidos, a noite está escura e tenho pressa para voltar à casa. Mais uma quarta-feira se foi, mais duas horas de fantasia que acabaram. Pego o ônibus, sento no banco e olho pela janela. Nada mudou. Somente eu. E nada vai mudar, não durante o resto da semana. Tudo permanecerá igual… Pelo menos, até a próxima quarta-feira… 8h da noite.

set/2018

4 comentários sobre “Aula de dança

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