des mata

poesia

Certas feridas marcam a alma,
Afundam a carne,
Queimam o cerne.

A força da queda,
O impacto, o tombo.
Perde-se o ar.
A costela perfura o pulmão.
Flores e pétalas.
Os pés como raízes,
e não há para onde seguir.
Eternamente presa,
onde fui plantada.

Regada pelas lágrimas da chuva,
cercada por fantasmas,
novas sementes.

É uma mata fria e escura,
os galhos se entrelaçam
e sufocam.
O topo da árvore é alto demais,
longe demais.
Não há entrada para a luz.
Não há espaço entre as folhas.
Não há caminho para o sol.

O chão de terra puxa,
o machado cai,
a ferida abre,
o sangue sai.
O tronco já fraco,
não suporta tanto peso,
inclina, enverga e dobra.
Parte-se ao meio.
Rompe-se a alma.
Com um último suspiro, o baque surdo ecoa.
Apodrece.

out/2018

2 comentários sobre “des mata

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